D. João I - Mestre de Avis (O de Boa Memória)

16/12/1383View on timeline

João I de Portugal (Lisboa, 11 de abril de 1357 – Lisboa, 14 de agosto de 1433), conhecido como Mestre de Avis e apelidado de "o de Boa Memória", foi o rei de Portugal e dos Algarves de 1385 até à sua morte, sendo o primeiro monarca português da Casa de Avis. Era filho ilegítimo do rei D. Pedro I de Portugal com Teresa Lourenço, sendo escolhido e aclamado como rei durante a Crise de 1383–1385.

Com o apoio do condestável do reino, Nuno Álvares Pereira e os aliados ingleses travou a Batalha de Aljubarrota contra o Reino de Castela, que invadira o país. A vitória foi decisiva: Castela retirou-se, acabando bastantes anos mais tarde por o reconhecer oficialmente como rei. Para selar a aliança Luso-Britânica casou com Filipa de Lencastre, filha de João de Gante, 1º Duque de Lencastre (de segunda criação), dedicando-se desde então ao desenvolvimento do reino.

Em 1415, conquistou Ceuta, praça estratégica para a navegação no norte de África, e deu início à expansão portuguesa. Aí foram armados cavaleiros os seus filhos D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, irmãos da chamada ínclita geração.

João I

Criança

D. João era filho ilegítimo (natural) do rei D. Pedro I e de D. Teresa Lourenço, uma dama galega (Ms. 352 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo da Crónica de el-rei D. Pedro I, de Fernão Lopes) ou de uma filha de Vasco Lourenço da Praça, um mercador de Lisboa, segundo D. António Caetano de Sousa, e que fez eco noutros conceituados historiadores contemporâneos como Maria Helena Cruz Coelho e o olisipógrafo José Sarmento de Matos. Em 1364, foi consagrado Grão-Mestre da Ordem de Aviz.

Crise de 1383–85

À data da morte do rei D. Fernando I, Portugal parecia em risco de perder a independência. A rainha D. Leonor Teles de Menezes era impopular e olhada com desconfiança. O facto de se ter tornado pública a sua ligação amorosa com o nobre galego João Fernandes Andeiro, personagem influente no paço, atraiu  críticas contra a sua pessoa e o seu amante. Para além do mais, a sucessão do trono recaía sobre a princesa D. Beatriz, a única filha de Fernando I e de Leonor Teles de Menezes, casada aos onze anos de idade com o rei João II de Castela.

A burguesia e parte da nobreza juntaram-se então à voz popular que clamava contra a perda da independência, tão duramente mantida por D. Fernando I. Dois pretendentes apareceram para competir com João I de Castela e D. Beatriz pela coroa portuguesa:

D. João, príncipe de Portugal, filho de D. Pedro I e D. Inês de Castro, que era visto por muitos como o legítimo herdeiro, dado o suposto casamento dos seus pais e D. João, filho de D. Pedro I e de Teresa Lourenço, que cedo se tornou rei.


Morte do Conde Andeiro Museu Nacional Soares dos Reis, Porto)

Acicatado por um grupo de burgueses e nobres, entre os quais Álvaro Pais e o jovem D. Nuno Álvares Pereira, e tendo em conta o descontentamento geral, o Mestre de Avis assassinou o conde de Andeiro no paço a 6 de dezembro de 1383. Com a posterior fuga de Leonor Teles de Lisboa para Alenquer iniciou-se a sucessão de acontecimentos que lhe entregaria a regência, a qual de início planeava exercer em nome do seu meio-irmão, o Infante D. João. Mas como este  já fora aprisionado por D. João I de Castela, abriu-se então a possibilidade política de o Mestre de Avis vir a ser rei.

O assassinato do conde Andeiro explica-se com a vontade de vingar a honra do falecido rei Fernando I, pela razão de que João I de Castela havia começado a violar o pacto antenupcial de Salvaterra de Magos logo no primeiro dia em que se fez aclamar, em Toledo, «Rei de Castela e Portugal». Aquele tratado antenupcial apenas conferia a si e à sua mulher Beatriz, sendo esta herdeira de Fernando I, o título nominal de reis e senhores de Portugal, mas sem deterem poderes de efetiva governação. Além disso, os reinos de Castela e Portugal deviam manter-se separados. 

Para além de logo ter juntado as armas dos dois reinos, João I de Castela, continuou a desrespeitar o tratado: entrou em Portugal pela Guarda nos finais de dezembro de 1383. Queria ser soberano pleno, não de dois reinos separados mas de um único, considerando que não tinha que atender em nada ao tratado de Salvaterra porque a sua mulher Beatriz era a herdeira do trono português. Quem o diz de forma mais clara não é Fernão Lopes, mas sim o cronista castelhano Pero Lopez Ayala, contemporâneo dos acontecimentos, na sua Crónica do Rei Dom João, o primeiro de Castela e Leão. Consultem-se, para o constatar, os capítulos IX e XI do ano quinto e os capítulos I e II do ano décimo segundo desta Crónica. Seguiu-se a crise de 1383–1385, ou Interregno, um período de anarquia e instabilidade política onde as diferentes cidades e vilas de Portugal se declaravam umas por D. Leonor Teles (a maioria destas até ela abdicar da regência em benefício de João I de Castela e da filha), outras por D. Beatriz e o seu marido, outras ainda pelo Mestre de Avis, além das que se mantiveram neutras, na expectativa do desenlace.

A guerra civil arrastou-se por mais de um ano. D. Nuno Álvares Pereira, posteriormente Condestável de Portugal, revelou-se um general de grande valor. Fernão Lopes é um crítico feroz das ações militares do Mestre durante o primeiro ano de guerra, dado que tinha tendência a preferir os cercos e a assistência dos grandes fidalgos, sem outros resultados que não fossem traições, ao contrário da luta militarmente inovadora e terrivelmente eficaz de Nuno Álvares, que arrancou muitas vitórias no Alentejo e deu uma boa ajuda a Lisboa, onde o Mestre ficou sitiado sem se ter podido abastecer das provisões necessárias para aguentar durante muito tempo o cerco. No entanto, depois das Cortes de Coimbra em 6 de abril de 1385, o rei D. João I mostrou-se um bom seguidor das táticas militares de D. Nuno Álvares e do conselho de guerra deste constituído por escudeiros.

Finalmente a 6 de abril de 1385, as Cortes portuguesas reunidas em Coimbra elevaram o Grão-Mestre de Avis, como D. João I, a rei de Portugal. Esta tomada de posição significou na prática que a guerra com Castela prosseguiria sem quartel, visto que se declarava nulo o estatuto de D. Beatriz de Portugal, rainha consorte de Castela, como herdeira de D. Fernando, isto devido à violação do tratado de Salvaterra tanto pelo seu marido como por ela (com 11 anos de idade tivera de jurar o tratado em Badajoz, aquando do seu casamento). «Venhamos a outra maior contradição», disse João das Regras, ao começar a falar da «quebra dos trautos» no seu discurso perante as Cortes de Coimbra (Crónica de el-rei D. João I, cap. CLXXXV). E como os quebrara, não podia suceder ao pai, o «postumeiro (último) possuidor» destes reinos. É por isso que na História de Portugal Beatriz não figura como Rainha, pois foram as próprias Cortes de 1385 a proclamar que ao rei D. Fernando I, postumeiro possuidor do reino de Portugal, quem sucedeu foi o rei D. João I.

Pouco depois, em Junho de 1385, João I de Castela invadiu pela 2.ª vez Portugal com o objetivo de tomar Lisboa e ver-se livre do «Mestre d’Avis que se chamava rei» (era o modo como os castelhanos o designavam). Com os castelhanos vinha então um grande contingente de cavalaria francesa. A França era aliada de Castela enquanto os ingleses haviam tomado o partido de D. João I (Guerra dos Cem Anos). Como resposta D. João I preparou-se com Nuno Álvares para a batalha decisiva. O Condestável de Portugal, que o rei nomeara aquando das Cortes de Coimbra e o seu conselho de escudeiros montaram então uma tremenda armadilha ao exército castelhano.

O génio militar de Nuno Álvares Pereira foi decisivo na Batalha de Aljubarrota.

A invasão castelhana originou uma debandada durante o verão, depois da decisiva Batalha de Aljubarrota travada a 14 de agosto, perto de Alcobaça, onde o exército castelhano foi quase totalmente aniquilado, apesar de se encontrarem em vantagem numérica de 4 para 1. Castela teve de se retirar do combate e a estabilidade da coroa de D. João I ficou solidamente garantida. Em 1400 terminou a guerra com Castela e em 1411 foi assinado um tratado de aliança e de paz com aquele país, reconhecendo Castela sem quaisquer reservas D. João I como rei de Portugal.

Em 1387, D. João I casou com D. Filipa de Lencastre, filha de João de Gaunt, Duque de Lencastre, fortalecendo por laços familiares os acordos do Tratado de Aliança Luso-Britânica, que perduram até hoje. Depois da morte em 1390 de João de Castela, sem herdeiros de D. Beatriz, a ameaça castelhana ao trono de Portugal estava definitivamente posta de parte. A partir de então, D. João I dedicou-se ao desenvolvimento económico e social do país, sem se envolver em mais disputas com a vizinha Castela ou a nível internacional. Teve como chanceler João das Regras que defendia a centralização do poder real. A partir de certa altura associou ao governo o filho D. Duarte.

Quando o rei quis armar os seus filhos cavaleiros, estes propuseram a conquista de Ceuta, no Norte de África, em 1415, uma praça de importância estratégica no controle da navegação na costa de África que acabou por ser conquistada a 21 de agosto. Após a sua conquista são armados cavaleiros, na anterior mesquita daquela cidade, os príncipes D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique. Entretanto, na véspera da partida de Lisboa, morrera a rainha D. Filipa de Lencastre.

Casamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre.

Legado

Cronistas contemporâneos descreveram D. João I como um homem arguto, cioso em conservar o poder junto de si, mas ao mesmo tempo benevolente e de personalidade agradável. Na juventude, a educação que recebeu como Grão Mestre da Ordem de Aviz transformou-o num rei invulgarmente culto para a época.

O seu amor ao conhecimento passou também para os filhos, designados por Luís Vaz de Camões, nos Lusíadas, por «Ínclita geração»: o rei D. Duarte I de Portugal foi poeta e escritor, D. Pedro, Duque de Coimbra o «Príncipe das Sete Partidas», foi um dos príncipes mais esclarecidos do seu tempo e muito viajado, e o Henrique, Duque de Viseu, «o navegador», investiu toda a sua fortuna em investigação relacionada com navegação, náutica e cartografia, dando início à epopeia dos Descobrimentos.

A sua única filha, D. Isabel de Portugal, casou com o Duque da Borgonha e entreteve uma corte refinada e erudita nas suas terras.

No reinado de D. João I foram descobertas as ilhas de Porto Santo (1418), da Ilha da Madeira (1419) e dos Açores (1427), além de se fazerem expedições às Canárias. Teve início, igualmente, o povoamento dos arquipélagos dos Açores e da Madeira.

D. João morreu a 14 de agosto de 1433. Jaz na Capela do Fundador, no Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha. Contudo, o rigor histórico leva a que se aponte uma observação à data da morte de D. João I: na realidade o monarca morreu a 13 de Agosto. Todavia, por uma questão de propaganda dinástica, muito bem esboçada por seu filho D. Duarte, a data foi alterada para 14. Acerca deste assunto sugere-se a leitura do excelente estudo de Armindo de Sousa.

Foi cognominado "O de Boa Memória", pela lembrança positiva do seu reinado na memória dos portugueses, também podendo ser chamado de "O Bom" ou "O Grande".

Foi impressa uma nota de 1.000$00 Chapa 6 de Portugal com a sua imagem.

Bandeira pessoal de D. João I com a sua divisa: «Pour bien».

Títulos, estilos, e honrarias

Títulos e estilos

1 de abril de 1357 – 1364: "D. João"

1364 – 16 de dezembro de 1383: "D. João, Mestre de Avis"

16 de dezembro de 1383 – 6 de abril de 1385: "D. João, Mestre de Avis, Regedor e Defensor do Reino"

6 de abril de 1385 – 14 de agosto de 1433: "Sua Mercê, o Rei"

O estilo oficial de João enquanto Rei era até 1415: "Pela Graça de Deus, D. João, Rei de Portugal e do Algarve". Em 1415, após a conquista de Ceuta, a titulatura evoluiu para: "Pela Graça de Deus, D. João, Rei de Portugal e do Algarve, e Senhor de Ceuta"

Reis de Portugal, 10, Dom João I, "O de Boa Memória"

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Published in 23/01/2019

Updated in 19/02/2021

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