Entre Espaços

02/06/2022

O que há entre a Galeria Homero Massena e o Museu de Artes do Espírito Santo? 

Os educadores que circulam entre dois espaços expositivos e lidam com duas propostas curatoriais de uma mesma exposição, devem responder o que há entre esses dois espaços, conceitualmente e fisicamente. 

Imagem de Bare Life Study #1, Coco Fusco, Vídeo, 14’, 2005 
 

ENTRE ESPAÇOS

Bárbara Thomaz

A proposta da exposição Reviravolta, parceria da Secretaria de Cultura do Governo do Estado do Espírito Santo com a associação Videobrasil, funciona a partir de dois eixos expositivos interseccionais, atravessados conceitual e politicamente, que dizem respeito a uma mesma curadoria, a uma certa unidade de sentido. Isto é, ainda que estes trabalhos guardem suas particularidades, suas idiossincrasias em termos de metodologias e abordagens, são vozes que coletivamente, empenhando-se em produzir a diferença, formam um uníssono contra os intentos hegemônicos na aplanação de sentido sobre a vida.

Os trabalhos apresentados no MAES, Museu de Arte do Espírito Santo Dionísio Del Santo, ostentam uma verve crítica geopolítica realizada por artistas do Sul Global – sendo esta a posição política manifesta do acervo da Videobrasil – direcionadas às possibilidades da linguagem e de modos de vida distintos e contra hegemônicos a partir da periferia. Sabenças e ciências ancestrais, cosmologias outras, são invocados no sentido de reposicionar os sujeitos na produção de (re)conhecimento e memória coletiva, que é constantemente solapada e neutralizada pela lógica do capitalismo global.

Produção, inclusive, aqui nada resguarda de semelhante com esta ordem. Não se trata de extrair a riqueza da vida até as últimas consequências, até seu esgotamento total. Ao contrário: são artistas muito mais interessados na vida como procedimento de compostagem e, por isso mesmo, de reviravolta.

L’Arbre D’Oublier, 27’31”; Ipê-amarelo, 15’44”; Cine Brasil, 15’10”; Cine África; 7’35”, Paulo Nazareth, Vídeo, 2013
 

Desde Há Terra, de Ana Vaz, passando por About cameras, spirits and occupations, do coletivo indígena Alto Amazonas, até Tocaia, de Aline X e Gustavo Jardim, e os quatro vídeos presentes de Paulo Nazareth, Cine África, Cine Brasil, Ipê Amarelo” e L’arbre D’oublier, para citar apenas algumas das obras presentes, a ideia é fazer tensionar, com o vídeo, os discursos predominantes através de uma guinada epistemológica.

Os trabalhos apresentados na Galeria de Arte Homero Massena têm como fundamento a performance, desde registros performáticos que datam das primeiras edições da Videobrasil até a performance como meio que se hibridiza midiaticamente com o vídeo. Seus questionamentos e efeitos são igualmente radicais no sentido de produzirem uma interpelação e análise crítica do poder.

Coco Fusco (A Bare Life Study, 2005) e Marcello Mercado (Politik, 2001) rememoram e fazem aparecer o não-visto das alcovas da grande política. O incômodo e o arrepio conservador sobre estes trabalhos está naquilo que as políticas e o triunfalismo liberal não nos deixam ver: enquanto governos de direita suplantavam, via golpe de estado, as liberdades de seus próprios povos sob o selo da ordem e do progresso, pessoas eram bárbara e silenciosamente torturadas em seus porões e prisões.

Mercado mostra "lá, onde o sol não bate" em sua ambivalência de sentidos. Lá, em que a exceção é permanente, como na prisão de Guantánamo – caso da performance de Coco Fusco –, àqueles que perturbam os desígnios da lei. A nudez da vida dos outros onde não a vemos é matéria prima e contra-proposta a estes regimes necrófilos.

O samba do crioulo doido, Luiz de Abreu, Vídeo, 22’29”, 2014
 

Em Futebol (2005), do coletivo 3 de Fevereiro, e Samba do Crioulo Doido (2014), de Luiz de Abreu, os artistas se utilizam de estratégias distintas em performance para irromper contra uma mesma ordem e manifestações racistas cotidianas. São trabalhos direcionados à inconfessa e naturalizada consciência colonial.

Já na década de 1980 – período cambaleante da ditadura militar brasileira e momento em que se iniciam as primeiras edições da Videobrasil –, a série de performances de Otávio Donasci invoca, nas fissuras do regime, criaturas videoantropomórficas que circulam no espaço urbano de São Paulo, sendo um verdadeiro prenúncio – a níveis físicos, prostéticos, pois que transformam o corpo do próprio artista –, da hibridização dessas linguagens artísticas.

Mais recentemente, em 2011, a performance de Paula Garcia, Estudo para um soterramento, se realiza em uma espécie de oficina mecânica impregnada de magnetismo no seu teto e paredes. O trabalho nos interroga sobre o que é consenso em termos de peso e leveza da matéria, tumultuando as paredes ao posicionar objetos metálicos de variadas dimensões em sua superfície.

Ambos os eixos expositivos visionam, portanto, que nos reviremos. Façamos destes trabalhos-comunidade veículos para um exercício de pensamento anticolonial que não mistifique e nem romantize – próprio de um culto exotista pretensamente benevolente – as propostas desses artistas. A Reviravolta é uma oportunidade de reexaminação crítica da linguagem, de abertura a novas perspectivas que escapem ao antropoceno; são rituais de reversão – o vídeo, por excelência, como imagem movimento em que se rebobina – e de cura dos traumas coloniais empenhados pela modernidade em todo seu vigor; a Reviravolta nos faz pensar relações distintas com a terra, que não aquela em que apenas se retira sua vida pela marcha progressista, mas que pode ainda, quem sabe, se alinhavar com ela.

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Published in 7/06/2022

Updated in 23/08/2022

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