Urbanização no ES

01/01/2021View on timeline

JACARÉ DO PAPO AMARELO

Típico da mata atlântica, o jacaré-do-papo-amarelo é um animal de hábitos noturnos que tem como hábitat natural ambientes como brejos, mangues, lagoas, riachos e rios. Sua alimentação se inicia com insetos e seres invertebrados, passando para peixes, caramujos, aves e pequenos mamíferos na fase adulta. Os jacarés como conhecemos hoje são muito mais recentes, mas mesmo assim tiveram origem há alguns milhões de anos atrás. Eles pertencem a uma linhagem irmã dos dinossauros que é a mesma linhagem das aves. No período Triássico um mesmo grupo se separou e o ramo deu origem aos dinossauros e a aves e outro ramo aos jacarés.

A reprodução dessa espécie se inicia no verão, com o macho copulando com várias fêmeas. A fêmea constrói o ninho, onde são postos cerca de 30 a 50 ovos por uma incubação que pode chegar a 90 dias. Apesar da quantidade de ovos no processo de reprodução, a espécie segue ameaçada de extinção segundo o IBAMA. Isso se deve, principalmente, pela destruição de habitat natural desses animais e à poluição dos rios.

Esse cenário de ameaça de extinção preocupa pesquisadores e ambientalistas, já que os jacarés são animais ecologicamente importantes, pois fazem o controle biológico de outras espécies de animais, se alimentando de animais mais velhos e fracos. Além disso, as fezes deste animal são alimento para peixes e outros seres vivos aquáticos. Por serem animais predadores, eles mantêm o controle do meio ambiente, conseguindo manter o equilíbrio e a saúde de seus hábitats. Ao estudar a saúde desses animais é possível identificar, por exemplo, diferentes graus de poluição do ambiente aos quais eles pertencem, se há metal pesado, contaminação por antibiótico, produto químico vindo da agricultura, entre outros.

Os jacarés no Espírito Santo são espécies chamadas de “bandeira”. Há em torno deles um forte projeto de conservação, eles despertam curiosidade, medo, interesse das pessoas, nesse contexto é possível mobilizar fortemente as pessoas para preservação do hábitat desta espécie, e isso leva à conservação de outros animais inseridos também nesse hábitat. O mesmo acontece com as Baleias Jubartes. (LINK COM O EVENTO DAS JUBARTES)

Os jacarés do Muses

Nesse contexto, pesquisas, estudos e ações de conscientização são fundamentais para que esses animais sejam monitorados e preservados. O Muses recebeu uma série de jacarés-do-papo-amarelo por meio de doações. As peças foram incorporadas à coleção, que agora conta com filhotes e adultos. Há esqueletos completos e partes de peles taxidermizadas.

As peças dos jacarés adultos foram doadas por um criadouro localizado em Cachoeiro de Itapemirim, no sul do estado. O criadouro é uma unidade particular, não comercial e está fechado. É um criadouro regulamentado mas não comercializa a carne do animal, normalmente destinada a alimentação e nem o couro, que geralmente é aproveitado para a produção têxtil.

Como o processo para reintegrar esses jacarés de criadouros na natureza é longo, e demanda pesquisas e investimentos, os animais do criadouro de Cachoeiro foram eutanasiados e disponibilizado para pesquisa, sendo doados ao Muses. Estudantes de biologia da Ufes do campus de Alegre conduziram o estudo que entre os resultados apresentou um artigo sobre a anatomia dos corações desses animais.

Os jacarés filhotes também chegaram ao Muses através de uma doação, mas esses haviam nascidos em um cativeiro do projeto Caiman, uma iniciativa do Instituto Marcos Daniel em parceria com a ArcelorMittal Tubarão, voltada para pesquisa e conservação das populações do jacaré-do-papo-amarelo, gerando dados técnicos-científicos de saúde e ecologia sobre a espécie.

Os filhotes que foram doados ao Muses estavam em cativeiro sendo acompanhados desde a eclosão dos ovos e seriam preparados para serem inseridos na região de reserva do projeto. Porém em uma forte onda de calor eles não resistiram e morreram.Diferente das aves e dos mamíferos, os jacarés não possuem um mecanismo que equilibra a temperatura do corpo. Desse modo eles dependem da temperatura do ambiente para regular a temperatura interna. Por isso, eles passam tanto tempo ao sol, mas para não superaquecer eles recorrem às lagoas, rios etc. Os filhotes que hoje fazem parte do acervo do Muses provavelmente superaqueceram. Com o calor no período as temperaturas aumentaram rapidamente, como os jacarés não possuem o mecanismo que regula a temperatura interna e não tinham um recurso hidrográfico (lagoa, rios) no cativeiro eles não resistiram.

Os filhotes agora contribuem com a ciência, já que estão sendo utilizados em pesquisas por alunos da Ufes, motivo pelo qual ainda não se encontram expostos no museu. O trabalho realizado pelo Muses junto aos estudantes tem como propósito gerar aprendizado, que por fim impactar no processo de preservação da população de jacarés, tanto no estado quanto no país.

As pesquisas são fundamentais por inúmeros motivos. Algumas por exemplo, que já estão sendo realizadas, apontam que o cenário de extinção da espécie é alarmante, que no Estado a maior população, com grande abundância fica dentro de um complexo industrial, e que a faixa de distribuição em que o animal reside, vai do Rio Grande do Norte até a Argentina, passando pelo Uruguai.

O impacto da urbanização na vida dos jacarés

O processo de urbanização como um todo gera muitas mudanças e com o Espírito Santo não foi diferente. Toda a região metropolitana de Vitória, por exemplo, era um ecossistema predominantemente aquático, e mesmo que historicamente o Estado tenha se desenvolvido num contexto de proteção ambiental, as transformações da urbanização foram significativas.

A urbanização capixaba tem início nos governos de Jones dos Santos Neves, Francisco Lacerda de Aguiar e Carlos Lindenberg, durante os anos 60, quase uma década depois comparada ao restante do país O processo de urbanização no Espírito Santo esteve muito ligado à expansão agrícola e ao crescimento das cidades. Todo esse desenvolvimento gerou um avanço dos ambientes urbanos sobre os ambientes naturais, o que culminou em grandes eventos de extinção de animais como os jacarés-do-papo-amarelo.

No ano de 1950 a população urbana representava apenas 20% do total do Estado, a maior parte vivia no campo. No final da década de 60, a população urbana representava 45% do total, nesse período a base econômica capixaba ainda era firmada na agricultura, só a partir dos anos 70 é que ela se sobrepõe à população rural, vindo a representar 67% da população total em 1980.

O incentivo à industrialização capixaba, baseado em recursos fiscais também ocorre nesse período do fim dos anos 60. A implantação aconteceria a partir dos anos 70, com os chamados Grandes Projetos, portuário e o siderúrgico, voltados para o comércio externo e tendo como objetivo mudar o perfil historicamente agrário da economia capixaba. A região da Grande Vitória nesse período atraía muita mão-de-obra, principalmente para a construção civil nos canteiros de obra para implantação desses projetos.

Mas afinal, o que todo essa história sobre o período de urbanização do Espírito Santo tem a ver com os jacarés-do-papo-amarelo? Tudo! Esse período de urbanização começa a ocupar áreas que antes eram o habitat natural desses animais, e como já mencionado resultando em extinções em massa da espécie. Desse modo o homem vai literalmente ocupando o que antes era o ambiente dessas e de outras espécies.

Hoje a maior população de jacarés-do-papo-amarelo dentro do Espírito Santo fica dentro da reserva da Arcelormittal Tubarão, localizada em Serra. Como a área é privada, a caça, outro fator de extinção, não ocorre. Ao todo são 600 jacarés-do-papo-amarelo, distribuídos em uma área de 4,5 milhões de m², esse número atualmente representa a maior população de jacarés dessa espécie no Estado. Outras reservas espalhadas pelo Espírito Santo também contam com grupos da espécie, porém em números bem reduzido, grupos de 30 a 50 jacarés. Entre elas destaca-se, o Parque da Cachoeira da Fumaça e o Parque Estadual Paulo César Vinha.

O número da maior população de jacarés-do-papo-amarelo do Estado evidencia a realidade de ameaça de extinção vivida pela espécie, que atualmente é mais ameaçada que as tartarugas e as baleias. Cenário alarmante diante do fato de que o Espírito Santo é naturalmente uma das áreas focais de distribuição dessa espécie, principalmente nas áreas de mata próximas dos corpos d’águas.

Nesse contexto o jacaré-do-papo-amarelo é obrigado a viver em pequenos fragmentos de matas. Logo ele, símbolo da mata atlântica, tido pela ciência como fundamental para o equilíbrio ambiental. A extinção dessa espécie não impacta apenas o meio ambiente, mas sim o ecossistema como um todo, incluindo a saúde humana.

Há casos de novas bactérias que são descoberta a partir da análise desses animais. Bactérias já resistente aos antibióticos usado em tratamento. São bactérias que estão presente na água e se tornam resistente à esses remédios em função da emissão de resíduos com a substância em mares, rios, lagoas e outros corpos d'água. Fatos como esse torna o jacaré cada vez mais um símbolo de resiliência.

Jacaré: um símbolo de resistência (Foto Léo Merçon)

Assim como outros animais, os jacarés sobreviveram a muitas mudanças ambientais e transformações severas. Mas como já mencionado, os animais regulam suas temperaturas por meio da temperatura do ambiente, eles não possuem o mecanismo igual os mamíferos, por exemplo, que equilibra a temperatura interna. Ou seja, passaram por severas mudanças e sobreviveram mesmo com esse fator complicador, que pertence a natureza do animal.

Como regulam a temperatura corporal de acordo com o clima do ambiente externo, as temperaturas altas são boas para esses animais. Por isso, eles ficam por horas parados no sol, “lagarteando”, assim ele absorvem muito calor e depois equilibram a temperatura interna se mantendo na lama, na lagoa ou na fonte hídrica do seu hábitat.

Quando o assunto é a bacia hidrográfica, esses animais se restringem à lugares de águas doces, pois os jacarés, diferentes dos crocodilos, não possuem glândulas excretoras de sal, que ajudam os crocodilos a tolerar a água salgada, conseguindo filtrar o sal e tornando a água bebível.

No Espírito Santo é comum avistar jacarés em áreas urbanas, com casas, prédios e asfalto, como é possível observar nos seguintes registros.

Notícia de 06/02/2020 - https://globoplay.globo.com/v/8299725/programa/

Notícia de 27/12/2019 - https://globoplay.globo.com/v/8197035/programa/

Notícia de 11/12/2018 - https://globoplay.globo.com/v/7080287/programa/

Fatos como esses só reforçam a força da espécie, que mesmo com a transformação de seus hábitats ainda resistem. A relação deles com a mata atlântica é mais um exemplo dessa força, como já mencionado eles são típicos dessa flora e já vivem nela há milhares de anos. Porém, a mata atlântica tem estado cada vez mais fragmentada, sendo cortada por rodovias, cidades, sendo impactada pela poluição, pela degradação dos cursos d'água, barragens e hidrelétricas, por isso, as populações de jacarés têm cada vez mais se isolado umas das outras, mas seguem resistindo a todas essas transformações.

Jacarés X Crocodilos

Falando em crocodilos, é importante destacar que eles e os jacarés pertencem ao mesmo grupo, mas são de famílias diferentes. O crocodilo é instintivamente mais agressivo que os jacarés. Além disso a estrutura desses dois animais também os diferenciam. O formato da cabeça é diferente, o focinho, que é mais fino nos crocodilos e também a disposição dos dentes que nos jacarés são entrelaçados.

Uma curiosidade sobre ambas as espécies, é que língua deles é queratinizada, ou seja é revestida com queratina. Assim eles conseguem permanecer imersos na água sem desidratar. Outro recurso que esses animais possuem é uma válvula na garganta, que se fecha permitindo que eles fiquem com a boca aberta dentro água por um longo período aguardando presas despercebidas.

Jacaré não é lagarto e dinossauro não é “sauro”

Parece confuso, mas é exatamente isso. Muitos pensam que jacarés, crocodilos e dinossauros são e foram alguma espécie de lagarto, mas não são. O pior é que a etimologia não ajuda, já que o dinossauro vem do grego deinos sauros, que significa "lagarto terrível".

A confusão começa lá no início com o biólogo Richard Owen, que foi quem sugeriu o termo dinossauro para indicar que eram répteis de ossos gigantes e extintos. Foi Owen quem inventou a palavra "dinossauro".

Outro termo que contém “sauros” é o Arcossauros que significa lagartos dominantes. Arcossauros é o grupo do qual surgiu a linhagem dos dinossauros e dos jacarés e crocodilos.

O crocodilo criador do Nilo

O povo egípcio cultuava diversas crenças. Para eles a fauna, a flora e as pessoas eram resultado da criação divina, nesse sentido cada deus representava uma condição da natureza.

O crocodilo era um ser antropozoomórfico, uma mescla de forma humana com animal, mas também cultuado na forma zoomórfica, apenas animal. Esse era o deus Sobeck, adorado nos templos Fayum e Kom-Ombo, e responsável pela criação do Nilo, de acordo com alguns mitos que diziam que o rio havia sido formado a partir do suor do deus Sobeck.

Pela personalidade instintivamente violenta apresentada pelo animal, em alguns textos religiosos ele era chamado de “o raivoso”. Mas apesar disso, os egípcios o consideravam um bom deus e acreditavam que Sobek poderia defendê-los dos inúmeros crocodilos que rondavam o Nilo.

A ligação desse animal com o Nilo e a crença de que Sobeck havia criado o rio, faziam com que o deus fosse atribuído a fertilidade, já que os egípcios aproveitavam os ciclos do Nilo para fertilização da terra. Todos esses aspectos transformaram o crocodilo em um deus poderoso e benevolente, umas das mais antigas divindades do Nilo, que teria sido cultuado por mais de 4 mil anos.

Toda essa história foi construída porque os egípcios observaram as atribuições naturais do animal e isso se repetia com outros animais também associado à deuses.

Crocodylus Niloticus é o nome da espécie típica do Egito. Esses animais podem medir quase 5m de comprimento e atingir 14 km/h em terra e 30 km/h na água. Sua alimentação é composta por grandes animais que são atacados e capturados. A presa morre de forma imediata, mas é levada à água, onde é afogada para que a carne amoleça.

Mesmo apresentando toda essa voracidade, há relatos na história que narram a existência de piscinas nos templo onde esses animais eram criados e domesticado, tornando-se dóceis e permitindo que fossem reverenciados com enfeites e adoração, pois acreditava-se que o animal era a encarnação do deus Sobek. Muitos eram mumificados e sepultados junto com os faraós.

Hoje é possível ver de perto esses crocodilos mumificados no museu do Templo de Kom-Ombo, no Egito. Outra opção é a visita à reserva do Projeto Caiman, onde é possível ver de perto, e de forma gratuita os jacarés-do-papo-amarelo, vivos e parentes do poderoso Sobeck.


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Published in 26/02/2021

Updated in 26/02/2021

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