Abertura da passagem de Drake e os Pinguins de Magalhães

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Abertura da passagem de Drake e os Pinguins de Magalhães

Se você mora no Espírito Santo, provavelmente já explorou algumas das praias capixabas, tanto as de água mais tranquilas como a Curva da Jurema, em Vitória, até as de mar mais agitado, como a de Itaparica, em Vila Velha. O mar é umas das mais imponentes formações naturais. E assim como no Espírito Santo, por todo o mundo há mares tranquilos e outros bem agitados.

A região com as piores condições meteorológicas marítimas do mundo se chama Passagem de Drake e é formada pelo oceano Antártico, e liga a extremidade sul da América do Sul e a Antártica. Então, caso pense em navegar rumo à Antártica, prepare-se, pois terá que passar pelo mar conhecido por ser o mais perigoso no mundo, a Passagem de Drake.

Essa região marítima, que separa o continente Americano da Antártica na atualidade, é também onde se entrelaçam o oceano Atlântico e o Oceano Pacífico. Claro que nem sempre foi assim. Há cerca de 140 milhões de anos antes do surgimento dos primeiros pinguins, o continente Americano se separou da Antártica e no período Cretáceo, por volta de 65 milhões de anos atrás, se uniram novamente pelo sul da recente Patagônia.

Claro que nem sempre foi assim. Há cerca de 65 milhões de anos atrás, o continente Americano e o Antártico eram unidos pelo sul da recente Patagônia. A separação definitiva dos continentes, formando a configuração geográfica como conhecemos hoje, ocorreu há 35 milhões de anos atrás, no fim do período Eoceno, levando assim a abertura da Passagem de Drake.

A região da Passagem de Drake possui temperaturas baixíssimas, que variam de 0 a -25 graus durante o ano inteiro. É uma área de baixa visibilidade, com muitos ventos, e fortes correntes, onde podem ocorrer ondas que variam de 6 a 10 metros de altura. Também é caracterizada por mudanças de tempo de uma hora para outra, devido a sua grande profundidade e seu sistema de circulação atmosférica.

A estimativa é que o tempo necessário para a travessia desse mar é de aproximadamente 40 horas. Esse mar extremamente perigoso foi o centro de buscas de um avião chileno chamado "Hércules C-130” que desapareceu na região no final de 2019 com 38 passageiros a bordo, além de até hoje terem sido registrados o náufrago de 800 embarcações. A região é considerada tão perigosa que recebe esse nome em homenagem a um navegador e corsário inglês que conseguiu atravessar a região no fim do século XVI, chamado Francis Drake.

Essa travessia de mar agitado contrasta com outro símbolo da Antártica, os desajeitados mas exímios nadadores, os pinguins. Eles também são evidências biológicas que fortalecem a ocorrência de eventos históricos de milhões de anos atrás, como a união geográfica da América do Sul e Antártica como um só continente, como por exemplo, a presença de pinguins na América do Sul, apesar de seus primeiros fósseis serem da Antártica e da Nova Zelândia.

O que muitos navegadores fazem com certa dificuldade, ao atravessar a Passagem de Drake, os pinguins tiram de letra. A travessia deles nesse mar, que derruba embarcações de toneladas e grande desenvolvimento tecnológico, demonstra a alta capacidade e adaptação dos pinguins para o nado. Com o corpo afilado na cabeça e nadadeiras que cortam a resistência da água, os pinguins podem chegar a até 40km/h no ambiente aquático, alcançando distâncias de 173 km por dia e profundidades de até 90m, podendo segurar o fôlego por quase 5 minutos. Tal habilidade auxilia durante a captura de peixes, lulas e crustáceos, que compõem toda a sua alimentação e demandam uma grande quantidade de energia para a pesca.

Para isolarem a temperatura, possuem uma rica camada de gordura embaixo da pele que também serve como isolante térmico, ou como reserva de energia quando se encontram em escassez de alimentos. Em alguns casos, pode ocorrer a perda de penas em alguns fragmentos da plumagem, e consequentemente a interrupção da camada de ar. Nesses casos, passam a utilizar sua reserva de gordura para produzir uma fina camada de óleo, mantendo assim a permeabilidade, porém diminuem a quantidade de gordura de sua reserva energética e seu isolamento térmico. Por isso precisam manter uma alimentação rica em peixes gordurosos, demonstrando como a escassez de alimento pode contribuir para o aumento de encalhamento de pinguins nos litorais, uma vez que tais chegam desnutridos e hipotérmicos. No Espírito Santo é bem comum o encalhamento de espécies marinhas, inclusive de pinguins, no caso dos pinguins normalmente chegam ao litoral capixaba os pinguins de Magalhães.

O Pinguim de Magalhães (Spheniscus magellaniscus), é uma ave marinha que tem sua origem na Patagônia, na costa da Argentina, Chile, Uruguai, Malvinas e até Sul do Brasil e realizam movimentos migratórios sazonais, subindo o Atlântico na corrente das Malvinas e passando pela costa brasileira para se alimentar de peixes, lulas e crustáceos.

Eventualmente alguns indivíduos se perdem do grupo e acabam parando no litoral do Espírito Santo, e na maioria das vezes em estado de desnutrição, o que os impede de voltarem para casa sozinhos. Com a reincidências de casos assim, biólogos e médicos veterinários com uma visão conservacionista fundaram o Instituto de Pesquisa e Reabilitação de Animais Marinhos (IPRAM) que tem como principal atividade a reabilitação de pinguins de Magalhães, recebendo indivíduos encalhados no litoral do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia e Alagoas.

Além disso, desenvolvem atividades de pesquisa, o que contribui para o maior conhecimento da espécie e elaboração de estratégias de conservação. Reportagens mostram que além do comum encalhamento dos pinguins, a falta de informação da população sobre a maneira correta de agir, leva a muitos resgates da forma errada. É muito comum que as pessoas pensem que esses pinguins vivem no gelo e, portanto, colocam esses animais em caixas de isopor com gelo, levando o animal que está em estado de hipotermia à morte mais rapidamente. Especialistas do instituto informam que a maneira correta é colocar o animal em uma baixa de papelão com jornal para que ele possa se aquecer, e ligar para autoridades responsáveis e qualificadas para o resgate, como a Polícia Ambiental e o próprio instituto.

Todas as espécies de pinguins possuem o peito branco, e às vezes com um leve alaranjado, como nos Pinguins Imperadores, e as costas pretas. Os pés contém 4 dedos, unidos por uma membrana que é de grande auxílio durante a natação, sendo todos excelentes nadadores. Os pinguins vivem entre 15 e 20 anos em grupos de centenas ou milhares de indivíduos, chamados de pinguineiras.

São constantemente confundidos com mamíferos por não possuírem penas como as das demais aves, ao invés disso, seu corpo é coberto por uma plumagem que forma uma espessa camada de ar entre as penas, o que serve de isolante térmico e contribui para que não se molhem facilmente. Diferente dos mamíferos, os pinguins, não possuem glândulas mamárias e portanto não produzem nem alimentam seus filhotes com leite, além de serem capazes de colocar ovos. Costumam formar casais monogâmicos (o mesmo parceiro para a vida toda) e colocam 1 a 2 ovos por temporada reprodutiva (setembro a fevereiro). O casal compartilha a incubação que dura de 39 a 42 dias, e depois o cuidado parental também é compartilhado. Os ninhos são pequenos buracos no chão ou em tocas, e se distribuem pela Argentina, Ilhas Malvinas e Chile.

Os primeiros pinguins do planeta, surgiram no período Cretáceo, cerca de 66 milhões de anos atrás, período em que os dinossauros não avianos foram extintos. A reconfiguração dos continentes teve impacto na evolução dos pinguins, por afetar os padrões de dispersão e isolamento geográficos dos animais. Os primeiros fósseis de Pinguins, foram encontrados na Nova Zelândia e na Antártica, porém os fósseis dos pinguins têm uma relação genética de parentesco muito distante dos pinguins ainda vivos, como se estivéssemos falando da relação entre você e um primo de grau distante de sua tataravó. Isso nos mostra que os pinguins que hoje conhecemos não são fruto apenas de uma linhagem, mas do cruzamento e sobreposição de muitas linhagens diferentes, gerando assim uma grande variação genética e consequentemente de características entre as gerações.

Ameaças à espécie

Estudos revelam que fenômenos de aquecimento das águas oceânicas, provocam a escassez de peixes em determinadas regiões, principalmente próximas à linha do Equador. A falta de alimento tem feito com que pinguins viagem distâncias muito maiores para a busca de alimento, enquanto seus parceiros e filhotes esperam por mais tempo a chegada do alimento. Isso demonstra a importância dos pinguins como indicadores da qualidade ambiental e mudanças causadas pela atividade humana.

O crescente número de indivíduos encalhando em nosso litoral desde 2006, alertou para outros possíveis fatores, e estudos revelam que pode haver interferência com a escassez de alimento devido ao fenômeno El Niño e La Niña, de aquecimento dos oceanos ou a crescente quantidade de óleo derramado nos oceanos por navios e embarcações. Apesar de seu caminhar engraçado e “desajeitado” no ambiente terrestre, os pinguins possuem um corpo adaptado para o nado, totalmente hidrodinâmico.

Outros fatores além da escassez de alimento podem representar uma ameaça aos pinguins de Magalhães, como o derramamento de petróleo responsável por mais de 42.000 mortes de pinguins em apenas um ano na Argentina, e as mudanças climáticas, que além de causarem o derretimento do gelo e destruindo seu habitat, podem alterar o regime de chuvas em colônias de postura de ovos, causando o alagamento desses ninhos e matando os filhotes afogados.

Os pinguins de magalhães são classificados como Pouco preocupante de acordo com dados da IUCN Red List, porém em 2010, categorizado como “Quase ameaçado”, deu início a elaboração conjunta de um Projeto Nacional de Monitoramento da espécie, com o propósito de evitar o agravamento de sua situação de ameaça. Tal projeto, realizado pela CEMAVE, ICMBio e MMA, consistia em um compilado entre estudos e conhecimento sobre a espécie, identificando os principais fatores de ameaça, propondo uma série de medidas, além de identificar principais atores, seguindo uma escala de prazos e prioridades.

Eventualidades como atropelamentos por embarcações, ficarem presos em redes de pesca, podem enfraquecer o indivíduo, fazendo com que estes sejam levados pelas correntes marítimas e possíveis encalhamentos nas praias. No Espírito Santo também é comum o encalhamento de algumas espécies de cetáceos (baleias e golfinhos), já tendo ocorrido também do boto cinza. Nestes casos o Instituto de Pesquisa e Reabilitação de Animais Marinhos (IPRAM) realiza trabalhos de resgate, reabilitação e soltura desses animais. Além disso, o Instituto conta com atividades de ensino, como simulações de atendimento a encalhes, contribuindo para a preservação da espécie.

Pinguim de Magalhães do Muses


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Published in 26/01/2021

Updated in 19/02/2021

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